"Vento nas areias"

    Quantas vezes nos deparamos com situações que nos fazem sentir peixes fora d’água! De repente, por exemplo, nos damos conta de que decisões foram tomadas a nosso respeito, com influência cabal em nossas vidas, e nem fomos sequer consultados! Em situações como essas, costumamos ter uma de duas reações distintas: a primeira, talvez a mais esperada, tem caráter mais ativo e pode ser resumida, por isso mesmo, num único verbo – reagir; a segunda, também bastante compreensiva em determinadas situações tem caráter passivo – calar.
Quando optamos pela primeira opção, assumimos um risco. Mas quando optamos pela segunda, traçamos o nosso destino e assinamos a nossa sentença. Porque lutar, apesar de não nos dar a certeza da vitória, nos dá esperanças, além de duas alternativas distintas: vencer ou ser vencido. E calar? Bem, calar é calar e pronto – às vezes soa como uma silenciosa afirmação.
A história nos mostra exemplos de muitos que, optando pela primeira opção, lograram êxito, se não para si próprio, para alguns princípios; afinal a verdadeira batalha, e estamos falando no sentido mais amplo da palavra, não se faz apenas em proveito próprio, mas em proveito de uma massa ou de princípios coletivos.
Lutar é argumentar enquanto os argumentos puderem ser ouvidos; é usar de todos os recursos disponíveis, até mesmo, em última instância, da força quando for o caso, se os argumentos já não mais puderem ser ouvidos. É calar somente quando houverem cessados os motivos pelos quais se luta.
Às vezes, numa dessas lutas cotidianas, paramos por alguns instantes e olhamos para trás. Olhamos para ver se valeu à pena ter lutado tanto para obter pouco ou nenhum resultado. Pensamos se teria valido a pena ou se devíamos ter calado antes que a batalha tivesse iniciado.
Nessas situações raramente nos damos conta de que se estamos lutando é porque ainda existe um motivo pelo qual lutar. É porque ainda existe vida. Nessas situações raramente nos lembramos que talvez até o nosso direito de viver pudesse ter sido ceifado se por acaso tivéssemos calado desde o início.
José de Alencar, em seu livro O Guarani, obra sobre a qual diversos artista tiraram inspiração para criar excelentes e inovadoras variações, descreveu diversas dessas lutas vivenciadas por pessoas motivadas por variados sentimentos, situações e princípios: paixão, amor, ódio, intriga, lealdade, crenças, classes etc. O desfecho desse romance é um tanto quanto trágico e culmina na forma dos dois tipos de lutas que viemos falando até agora. E mesmo num cenário como aquele o autor ainda encontra argumento para fazer poesia, descrevendo uma palmeira que passa pela correnteza que a arrancou. E que “sumiu-se no horizonte”. Vale ressaltar que até mesmo essa palmeira deve ter lutado o quanto pôde até ser arrastada pela correnteza que a calou; correnteza essa que, por outro lado, também lutou para arrancá-la e arrastá-la.
Ocasionalmente também seremos obrigados a calar contra a nossa vontade. E quando somente essa alternativa nos restar, seremos honrados pela lembrança de que lutamos enquanto pudemos. E nos acalentará a idéia de como fomos bravos, enquanto palmeira, resistindo tanto tempo à correnteza que um dia nos calou.
E quando isso acontecer aguardaremos ansiosos o reposicionamento da rodagigante que é a nossa vida e que nos recolocará no topo; que nos prenderá a uma curva do rio, prontos para uma nova resistência. E aí, ou enquanto isso não ocorrer, faremos verdadeira a assertiva de José de Alencar ao encerrar outra de suas maravilhosas obras, Iracema. Porque não é preciso ser um exímio conhecedor daquele escritor para confirmar que “tudo passa sobre a terra”. Afinal, tudo passa.

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