Palavras sem fronteiras - Vol 2

Coletânea bilíngue (português/espanhol) de contos, poesias, crônicas e obras literárias diversas, organizada por Izabelle Valladares (Editora LITERARTE) e publicada em abril de 2012.
Na obra em questão, participo com o conto  intitulado SPALLA MAIS QUE ESPECIAL.





Spalla mais que especial
Eber Josué

Ao sinal, as pesadas cortinas de veludo se abriram. O entusiasmo da assistência, aplaudindo com veemência, era nitidamente contrastante com a apreensão dos integrantes da orquestra. Os assentos sendo ocupados, percebeu-se que uma cadeira à extremidade do palco permanecia vazia. Parecia natural, pois tradicionalmente o seu ocupante, o spalla, é o último músico a entrar no palco.
Era aguardado o momento solene da aparição do principal violinista. Aquele que executaria a primeira nota  e determinaria a afinação de toda a orquestra.
O clima passou a ser de estranheza, dado o tempo que permanecia vazio o assento principal, e iniciou-se um burburinho. O desconforto demonstrado na face dos músicos dava à assistência a confirmação de que algo não saía como ensaiado.
Mas eis que, apesar do burburinho, da apreensão e desconforto, um movimento foi percebido vindo da entrada do teatro. Um toc-toc suave... O típico do ruído de um par de... saltos! Altos e finos. A atenção de todos se voltou para a porta de entrada do teatro. E então, como um monumento grego que acaba de receber fôlego de vida, trajando um longo vestido azul translúcido, ela veio descendo a longa escadaria lentamente, com o olhar completamente absorto.
Com imponência e calma foi descendo cada degrau, com um gingado que fazia parecer que a parte superior do seu corpo fosse independente da parte inferior. Dirigiu-se diretamente ao palco, galgando o seu limiar, e posicionou-se defronte ao assento reservado ao spalla. Num gesto imperativo, estendeu a mão para o violinista mais próximo que, sem titubear ou entender, entregou-lhe o próprio instrumento.
De posse do violino e do respectivo arco, após breve olhar sobre cada um dos instrumentistas ela apoiou o instrumento sobre o ombro esquerdo e, numa arcada firme, do talão à ponta, fez soar a nota de afinação. Os músicos, ainda confusos, não titubearam ao som do , tomaram posição e acompanharam a execução, até que a violinista, dando-se por satisfeita, assentou-se em silêncio.
Todos, cada vez mais apreensivos, esperavam o que viria a seguir. Então o maestro, que aguardava o seu momento, resolveu adentrar de vez, dirigindo-se ao local de onde conduziria o concerto, sem perceber que músicos e assistência, em choque aparente, não se levantaram para os cumprimentos de praxe. Como o início do evento urgia, ele rapidamente elevou os braços para ter a atenção, transmitiu sua intenção à batuta e prosseguiu com a regência.
Apesar da ausência do principal músico daquela orquestra, tudo parecia retomar aos eixos, tal era a sensação de presença que aquela sensual, talentosa e desconhecida usurpadora vestida de azul causava!
A aflição dos músicos retornou no momento em que a música, por capricho do compositor, exigia um solo que somente poderia ser executado pelo spalla. O maestro recolheu a batuta e ficou aguardando. Então ela se levantou, com exuberante autoridade, sem abandonar a posição de concerto, e iniciou o solo.
O esboço de surpresa partiu da primeira fileira, mas quando o maestro levou a mão direita para cobrir a própria boca ficou claro que todos já estavam boquiabertos. Alguns procuravam indício de truque para justificar aquele som que partia de um simples violino e preenchia todo o recinto, outros apenas se deixavam embalar, sem conseguirem sequer piscar os olhos.
O contrabaixista, único que ainda fazia um fundo harmônico, não conseguia esconder sua admiração e se desdobrava para que seu som saísse pianíssimo, para não cobrir o som daquele violino.
Duas flautistas se entreolhavam, meneando a cabeça, enquanto deixavam rolar espessas lágrimas pela face.
A violinista, olhos cerrados, executava a música que parecia ser trazida do além. Os dedos da mão esquerda dançavam sobre as cordas, bem como o arco tangido pela mão direita. A parte superior do seu corpo, que parecia independente, acompanhava a expressão de cada movimento, cada arcada, cada respiração... “Está possuída”, alguém comentou sem medo de errar. Pois estava, sem dúvida, completamente possuída pela música.
Quando ela iniciou um trêmolo, fazendo o arco bailar sobre as cordas do violino, os demais violinistas não se contiveram, em êxtase. Ao abandonar o arco para executar, pinçando as cordas com os dedos, um redondíssimo pizzicato, os violoncelistas foram ao delírio. Quando, por fim, colocou uma fermata naquela nota mais aguda, os ouvintes prenderam a respiração.
E foi assim que, enquanto todos ainda procuravam se recuperar do interminável tempo em que mantiveram a respiração suspensa, ela se levantou, devolveu o violino ao possuidor e se dirigiu à saída. Ao seu passar, o frisson que ela mesma causara na assistência a acompanhava, enquanto ela praticamente deslizava pelo corredor sem se ater aos murmúrios e tentativas de tocá-la.
Lá fora um carro a aguardava. Um jovem desembarcou e fez menção de abrir a porta do passageiro. Ela esboçou um ar de censura e, sem emitir qualquer som, elevou as duas mãos ao alto, aos moldes de um maestro que inicia seus trabalhos, até obter total atenção do rapaz. Em seguida começou a gesticular, enquanto o rapaz apenas assentia com a cabeça, sorrindo. Deu-lhe um beijo na face e foi, ele próprio, para o assento do passageiro.
Enquanto partiam, no interior daquele teatro ficavam pessoas a um salto da realidade, que não sabiam nada a respeito daquela bela jovem, de onde surgira... Que não perceberam, sobretudo, que para aquela exímia e especial violinista a música não bastava apenas ser ouvida, mas sentida em sua totalidade.
Durante o caminho não houve qualquer diálogo. E nem poderia haver, pois suas mãos estavam firmemente seguras ao volante.

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