Enquanto somos, a morte não é



(Publicado no livro As crônicas do Forte)

Luan parecia meio preocupado. Tinha à sua frente um abismo profundo e na mente uma dúvida cruel.
– Cabo Ariosi, qual das duas cordas eu devo puxar, mesmo?

– Pergunta para o cabo Henrique quando chegar lá embaixo – falou Ariosi, antes de dar um empurrão no soldado Luan.

– Cabo, o senhor matou o Luan! – exclamou Silvino, aflito, aproximando-se da escotilha.

O cabo Ariosi aproveitou a oportunidade e deu um empurrão também no soldado Silvino. Alguns segundos depois, ele próprio se lançou dali.

Apesar de ter sido o último a saltar, ao chegar ao ponto de reunião o cabo Ariosi encontrou apenas o cabo Henrique e o soldado Bernardinho.

– Algum sinal dos dois? – indagou Ariosi, com o paraquedas mal enrolado debaixo do braço.

– Acabaram de fazer contato via rádio – informou Henrique. – Devem estar há menos de cinco minutos daqui.

– Está na idéia – Ariosi comentou, enquanto conferia seu relógio.

Passados alguns minutos, Silvino e Luan chegaram ao local combinado, encontrando os demais sentados sobre o solo.

– Qual o motivo do atraso? – indagou o cabo Ariosi.

– O motivo do atraso foi que tivemos que nos recuperar de uma tentativa de assassinato – respondeu o soldado Silvino, visivelmente irritado.

– Eita! O que foi que aconteceu, hein, carinha? – o cabo Henrique indagou.

Convicto de que aquela havia sido uma pergunta retórica, Silvino se limitou a jogar o paraquedas ao chão e começou a esticar as cordas, sendo acompanhado por Luan.

– O que pensam que estão fazendo?

– Dobrando o meu paraquedas, cabo.

– Não há tempo para isso – informou Ariosi. – Façam apenas uma camuflagem, uma dissimulação em algum lugar do terreno, para ganharmos tempo. E eu ainda tenho que passar os detalhes da missão.

Quando todos estavam prontos o cabo Henrique determinou que se sentassem em círculo e atentassem para o que o cabo Ariosi tinha a lhes dizer.

– De acordo com o que me disse o capitão Marcelo, há cinco dias uma sonda meteorológica desviou do trajeto previsto, perdeu-se do seu balão e caiu nesta região.

– Não seria mais simples lançar uma nova sonda, ao invés de recuperar essa que já deve estar inutilizável? – indagou Silvino.

– É claro que pensei nisso – concordou Ariosi – e falei com o capitão, mas ao que parece essa tal sonda está programada com informações sensíveis.

– Aí é que a gente entra – falou Henrique.

Com um GPS nas mãos, Ariosi passou a detalhar os procedimentos para o resgate da sonda.

– A sonda, ou mais corretamente radiossonda, como o nome já diz emite sinais de rádio. Foi dessa forma que o capitão conseguiu determinar com precisão o lugar em que ela caiu.

– Então está no papo.

Ariosi se voltou para o soldado Luan, meneando a cabeça.

– Não é bem assim. A sonda caiu há cinco dias aproximadamente, mas há dois dias ela enviou sinal de uma posição diferente da original.

– Ela está se movendo? – indagou Silvino.

– É o que parece. Deve ter sido engolida por algum animal... Onça, talvez – comentou Henrique.

Com o comentário do cabo Henrique a turma se conscientizou de que estavam numa densa floresta suscetível de ter animais selvagens, inclusive onças, realmente.

– É melhor que encontremos logo essa coisa – falou Silvino. – Deus nos livre de passar a noite nesta floresta.

– Qual o problema? – indagou Ariosi. – Tem medo do quê, soldado?

– Não é medo, cabo, é....

– Não é medo? O nome disso, então, é cagaço – Ariosi interrompeu. – Ah, deixa disso e vamos botar o coturno na estrada.

Após ter registrado alguns dados no GPS, Ariosi indicou a direção a ser seguida pelos militares que, munidos com facas de trincheira, embrenharam-se mata a dentro.

Como parecia não ter chovido recentemente naquela região e a temperatura era amena, o clima estava propício para a expedição. O que não dava para evitar era a grande quantidade de insetos.

Já estavam caminhando há mais de meia hora, quando Luan indagou se não era o caso de uma pausa para descanso.

– Você faltou à instrução de marchas, Luan? Não sabe que o primeiro alto horário é aos cinqüenta minutos?

Mesmo dizendo aquilo, Henrique sugeriu a Ariosi que dessem uma pequena parada para o descanso. Bernardinho já dava sinais de cansaço, embora aquele soldado morresse antes de pedir para descansar.

– Vamos então parar rapidamente – informou Ariosi. – Bebam água, aliviem o coturno, massageiem os pés...

Enquanto orientava seus homens, Ariosi consultava seu GPS. Notando uma sombra de espanto na face do amigo, Henrique se aproximou.

– Algum problema?

– Pelo contrário – informou Ariosi. – De acordo com os dados que estou recebendo, já chegamos praticamente ao local.

Tão logo os militares se recuperaram da caminhada inicial, reuniram-se para partir.

– Carinhas, a missão está mais fácil do que pensávamos. O cabo Ariosi garantiu que estamos praticamente no local.

– Podemos ir nesta direção – indicou o cabo Ariosi, apontando uma região de mata alta.

No momento em que Ariosi deu o primeiro passo em direção ao interior da mata, algo fez com que recuasse imediatamente, fazendo com que todos também estacassem onde estavam. O cabo girou o pescoço para a direita, a fim de verificar se aquilo que acabara de ouvir e sentir era o que estava pensando. Então um segundo sibilo foi ouvido e dessa vez por todos.

– Para o chão! – ordenou Ariosi, já se jogando ao solo.

– Estamos sendo atacados? – indagou Henrique, incrédulo.

– Por Deus! Quem iria nos atacar neste fim de mundo?

– Índios? – sugeriu Luan.

– Que índios, soldado? – indagou o cabo Henrique.

Luan nada disse, apenas estendeu a mão. À frente dos militares estavam cerca de dez indivíduos, todos com arcos e flechas em riste.

– Misericórdia! Podemos atirar, cabo?

– Você está maluco, Silvino! Índios são protegidos por lei.

– O capitão Marcelo com certeza não passou um rádio para esses índios, avisando que a gente viria – falou Luan.

Enquanto os militares permaneciam deitados ao chão, supondo que qualquer movimento poderia ser decisivamente fatal, os nativos também permaneciam onde estavam, como se esperassem algum movimento.

– O que vem agora, cabo? – indagou Silvino.

No momento em que o cabo Ariosi se preparava para emanar suas ordens, o soldado Bernardinho fez menção de se levantar.

– Não faça isso! – Henrique falou com veemência, segurando o soldado pelo braço.

Mesmo ante a resistência imposta pelo cabo, Bernardinho ergueu parte do tronco e, encarando um dos indígenas, falou energicamente.

 Te'õ na nhandé sykyîesaba ruã: nhandé rekóreme bé, te'õ rekoe'ými; te'õ rekóreme, nhandé rekoe'ými.

Os olhos de todos os militares se voltaram na direção de Bernardinho ao mesmo tempo. Ninguém sequer imaginava o que estava acontecendo. Henrique chamou a atenção de Ariosi para o que ocorria na direção dos nativos.

A visão era inacreditável. Todos os indígenas, anteriormente agressivos, agora estavam com um dos joelhos sobre o solo, assim como seus arcos e flechas.

Alguns minutos depois todos os nativos se levantaram, falando e gesticulando coisas que os militares não conseguiam compreender. A maioria deles, na verdade. Bernardinho parecia estar compreendendo tudo o que ocorria, pois se levantou e caminhou na direção dos índios. Ali, aqueles indivíduos rapidamente juntaram várias flechas e, forrando-as com folhas verdes, construíram uma espécie de assento para o soldado que foi suspenso por dois daqueles indivíduos.

Mesmo sem entender o que ocorria, Henrique percebeu que estavam sendo deixados ali no meio do mato enquanto conduziam Bernardinho sabe-se lá para onde.

– Vamos acompanhá-los, Ariosi. Vai saber se eles não pretendem comer o Bernardinho...

– Do que é que o senhor está falando, cabo? – interrompeu Luan.

Henrique abriu uma larga gargalhada.

– O cabo está dizendo sobre transformarem o Bernardinho em refeição – informou Silvino. – Sabe que tem algumas tribos que são canibais, né?

Mantendo uma pequena distância dos nativos, os militares foram acompanhando aquela espécie de cortejo. Pela pequena distância parecia que Bernardinho vez ou outra ia dialogando com os demais.

– Como é possível? – comentou Ariosi. – Bernardinho parece que compreende perfeitamente a língua desse pessoal.

– Certamente deve estar falando na linguagem celestial. Ao que eu saiba a Torre de Babel foi um fato estritamente terrestre.

Houve um instante de silêncio para que a fala de Silvino fosse ruminada pela tropa, mas ninguém ousou discutir aquilo.

– Eu só gostaria de saber que tribo é essa – falou Henrique. – Pleno século XXI e parece que esse povo nem ouviu falar que Pedro Álvares Cabral passou por aqui.

– Farei as vezes dos portugueses. Se for necessário catequizar esse povo, Jesus me dará a graça de fazer isso.

Henrique encarou o soldado Silvino e apenas meneou a cabeça, em silêncio.

Poucos instantes de caminhada depois se depararam com aquilo que só haviam visto anteriormente nos livros de história e posteriormente na internet – uma taba indígena ao estilo rústico. E como se não bastasse, crianças e adultos caminhavam livremente nus.

– Inacreditável! Todos os índios que eu conheci tiraram carteira de habilitação antes de mim e andam em carros japoneses – comentou Luan.

Chegando à taba, foram recepcionados com o que poderia ser considerado ‘honras militares’. Uma oca foi disponibilizada para os militares, no entanto Bernardinho foi conduzido para uma oca maior localizada bem ao centro.

– Vamos ficar atentos, pessoal. Não podemos perder o Bernardinho de vista em momento algum – recomendou Ariosi.

– Ariosi, o pessoal fica aqui com você enquanto eu vou dar uma verificada na situação.

Enquanto Henrique saiu, os demais militares ficaram conversando sobre como conseguiriam sair dali sem precisar entrar em atrito com os indígenas.

– Eu não sei o que está havendo entre os índios e o soldado Bernardinho. Não sei se podemos confiar nesse pessoal...

– O seu faro diz que esses índios são de Deus, canga? – indagou Luan para o soldado Silvino.

Silvino meneou a cabeça lentamente.

– Ainda não sei o que pensar. Mas eu vejo uma luz diferente...

– Você vê uma luz? Tipo assim, uma aura? Isso deve ser muito bom! – Luan parecia empolgado.

Silvino meneou a cabeça rapidamente.

– Não é nada disso. Eu vejo uma luz diferente brilhando dentro daquela oca grandona, vejam. E eu acho que a energia elétrica ainda não chegou por aqui.

Ariosi teve que concordar que realmente aquela luz era muito estranha e certamente não vinha de uma fogueira.

– Vou dar uma checada rapidamente por lá – falou ele, fazendo menção de sair. – Ah, quase ia me esquecendo do meu kit de camuflagem.

Com surpresa, Silvino e Luan presenciaram o cabo retornar e ir tirando rapidamente as roupas, depositando-as num canto, para sair em seguida completamente nu, como se aquilo fosse muito natural.

Com certeza a idéia do cabo, ao se desnudar, era se passar despercebido no meio de todos aqueles índios que naturalmente andavam nus. Ou funcionara muito bem, ou então ninguém estava interessado no seu ir e vir, o que importava é que ele estava dentro da oca central.

Dando uma ligeira olhada por todo o interior da oca, grande parte do que havia por ali o cabo não conseguiria identificar, a não ser algo semelhante a redes e alguns alimentos da terra. O soldado Bernardinho devia estar por ali, mas com certeza Henrique cuidaria daquilo. Viera ali por causa da luz, que não demorou a encontrar.

Sobre uma espécie de altar rudemente edificado, estava o objeto que emanava aquela luz. Com estranheza Ariosi percebeu que a matéria de que era feita aquilo inexistia naquele lugar. E então quando ele se aproximou para observar com mais precisão, o GPS que carregava começou a emitir sinais sonoros contínuos, ao mesmo tempo em que a seta digitalizada na tela girava descontroladamente.

– Parece que você achou a radiossonda.

Ariosi foi pego de surpresa, mas logo reconheceu a voz do cabo Henrique e ao se virar percebeu que ele estava acompanhado de Bernardinho.

– O que significa isso? – indagou Henrique apontando o amigo de cima a baixo. – Onde estão suas roupas?

Ariosi começou a explicar que estava tentando não chamar muito a atenção.

– Não sei de onde você tirou a idéia de que tirando a roupa você não chamaria a atenção. É o único índio careca desta tribo. Agora vamos, que eu só continuo essa conversa depois que você estiver devidamente vestido. Essa coisa balançando está me incomodando, já – Henrique foi saindo, sendo acompanhado por Bernardinho.

Ariosi fez menção de pegar a radiossonda.

– É melhor não fazer isso, cabo. Eu explico depois – falou Bernardinho.

Sem entender nada, Ariosi acompanhou os companheiros para a oca na qual os demais estavam.

– Graças a Deus você está inteiro, Bernardinho – falou Silvino.

– Qual é a nossa situação agora, cabo? – indagou Luan. – Estamos presos e vamos virar jantar? Ou vamos poder ir embora e concluir a missão.

– A missão está concluída – garantiu Bernardinho.

Rapidamente o soldado foi contando tudo o que sabia. Para os índios, aquela radiossonda que caiu do céu era agora considerada algo enviado pelos deuses. E a confirmação veio dois dias depois, com a chegada dos militares, a frase dita pelo soldado Bernardinho em Tupi os levou a crer que estivessem diante de um deus.

– E a gente nunca soube que você falasse língua de índio – comentou Luan.

– Na verdade a gente nunca teve certeza de que você falasse alguma coisa – ironizou Ariosi.

– Só existe um problema. Aquilo se tornou sagrado para eles, que não pretendem devolver.

– Como assim? Aquilo é propriedade das Forças Armadas! – falou Ariosi, irritado.

– Eu tenho a solução – falou Silvino.

Quando toda a atenção estava voltada para Silvino ele falou qual era o seu plano, que foi aprovado pelos demais, afinal era o único até então.

– Bernardinho, você que tem intimidade com o chefe disso aqui, mande-o reunir toda a tribo. Se eles acham que somos deuses, ficarão surpresos com o recado que o Deus dos deuses tem para eles. A partir dessa noite não haverá nenhum pagão por aqui.

– E enquanto todos estiverem envolvidos com a missa que o Silvino vai pregar – falou Ariosi – vamos reaver aquilo que é nosso por direito. Não se esqueça de que você é o tradutor, Bernardinho.

À hora combinada a tribo toda estava reunida para ouvir o recado que os deuses tinham a lhes dizer.

– Vou começar desde o início, falando sobre a criação do mundo – falou Silvino ao ouvido de Bernardinho. – Diga a eles: “No princípio criou Deus o céu e a terra”.

 Ap-ipi-méhé Tupan u-zapo iwak, iwi-no – traduziu Bernardinho.

Primeiro os nativos começaram a cochichar entre si, com estranheza, mas foram pouco a pouco se acostumando ao assunto que, de alguma forma, tinha alguns pontos que lhes parecia familiar.

Enquanto isso os demais militares procuravam a melhor ocasião para entrar dentro da grande oca e resgatar a radiossonda.

– Mande-os fechar os olhos – falou Silvino ao ouvido de Bernardinho, mudando de tática. – Traduza: “Pai nosso que estás nos céus. Santificado seja o vosso nome”.

 Orerûb ybakepe tecoar, imoete pŷram ndecera toico – ia taduzindo Bernardinho.

Era a deixa. Enquanto todos estavam de olhos fechados, Ariosi rapidamente entrou na oca e foi direto para o local onde estava a radiossonda. Não fazia idéia do motivo pelo qual aquele equipamento emitia aquela luz, mas isso não importava. Retirou-a do local e saiu da oca o mais rápido que pode.

– Agora é só aguardar o Silvino terminar a missa – falou Ariosi – e vamos dar o fora daqui.

– Como é que vamos fazer contato para a base mandar o resgate? – indagou Luan.

– Não é necessário. O capitão garantiu que assim que a gente encontrasse a radiossonda, o GPS enviaria um sinal e o resgate partiria imediatamente. Pelo que entendi, o sinal foi disparado no momento em que me aproximei da sonda pela primeira vez.

Naquele momento Silvino e Bernardinho entraram rapidamente na oca.

– Pessoal, é melhor a gente sair correndo daqui. Logo eles vão descobrir o sumiço daquela coisa.

Não foi preciso dizer mais nada. Sorrateiramente os cinco abandonaram aquela oca e em questão de segundos estavam dentro da mata densa.

– Não podemos parar – comentou Henrique. – Vimos a que distância a flecha desse povo pode alcançar.

Nem bem Henrique havia acabado de falar, ouviram uma gritaria generalizada.

– Ih! Acho que alguém já percebeu que está faltando alguma coisa. Vamos correr, turma.

– Mas que povo de coração endurecido – falou Silvino ao perceber que estavam sendo perseguidos. – Acabei de explicar para eles: não matarás, conforme falou Moisés. E não é que esses safados estão querendo nos matar?

A turma corria o mais rápido possível, mas era muito difícil deixar para trás aqueles indivíduos que estavam acostumados a viver naquele ambiente. Como se não bastasse, além de correr Ariosi ainda tinha que ficar consultando o GPS de tempos em tempos, para não perderem o ponto de encontro.

De repente chegaram numa ampla clareira e ninguém entendeu o motivo pelo qual o cabo parou ali, fazendo com que todos também parassem, se um bando de raivosos indígenas e aproximavam.

– Eu não entendo – falou Ariosi preocupado. – Este deveria ser o local do resgate, mas não há ninguém.

– Todos aqui estamos vendo, mas será que eles vão entender que é aqui que nos separamos? – indagou Henrique apontando na direção dos nativos que estavam mais próximos do que nunca.

– Se esses índios resolverem nos atacar, que Deus tenha piedade da alma deles – falou Silvino.

E então, quando estavam numa distância em que um disparo de flecha poderia ser considerado ‘à queima roupa’, os nativos estancaram onde estavam. Não obstante, prostraram-se com os rostos voltados ao solo.

– Mas que diabos! – estranhou Luan.

Em seguida foi ouvido um ronco de motores e, ao olharem para cima, contemplaram um enorme helicóptero pairando sobre suas cabeças.

– Deus seja louvado! – falou Silvino.

À porta do helicóptero apareceu o cabo Evandro, lançando uma escada de cordas por onde a turma começou a subir.

– Todos embarcados? – indagou o piloto, assim que Ariosi apareceu.

A surpresa, que já tomava conta de todos, ficou ainda maior naquele momento. Aquela voz grave era reconhecível em qualquer lugar.

– Não é possível! O senhor?

– Sim, eu mesmo. Qual o problema, militar? Você esperava o papa? – falou o sargento Raimundo, segurando firmemente o manche de direção.

– Não, senhor. Deus é, mesmo, maravilhoso e às vezes escreve certo em linhas tortas – falou Silvino.

– Podemos partir, então, sargento – anunciou o cabo Evandro.

– Só um instante, sargento – falou Bernardinho.

Todos observaram o soldado Bernardinho se aproximar da porta da aeronave, onde o vento era muito forte, e gritar com todas as forças dos pulmões:

 Te'õ na nhandé sykyîesaba ruã: nhandé rekóreme bé, te'õ rekoe'ými; te'õ rekóreme, nhandé rekoe'ými.

Em seguida ele entrou definitivamente, segurando-se firmemente, pois o sargento Raimundo já esgotava o tempo de planagem e manobrava a aeronave para o destino final. Evandro estava confuso e boquiaberto.

– Alguém pode me dizer o que foi aquilo? – perguntou o sargento Raimundo.

– Vamos contar com detalhes, sargento – falou Ariosi. – Mas eu ainda quero saber o que foi que você acabou de dizer, Bernardinho. Foi a mesma coisa que você disse quando tivemos o primeiro contato com os índios, não foi?

Bernardinho concordou.

– Foi a primeira coisa que me veio à cabeça naquele momento, cabo. Como funcionou, usei novamente.

– Mas o que, exatamente, você disse? – indagou Henrique.

– É de algum filósofo... Acho que grego. Significa alguma coisa como “Nós não temos medo da morte. Porque enquanto somos, a morte não é; E quando a morte é, nós não somos.”

Ficaram em silêncio por alguns segundos, degustando o significado daquelas palavras. Ariosi foi o primeiro a se pronunciar.

– Boa, essa. Enquanto estamos, a morte não... Sabem de uma coisa? A partir de hoje, este será o nosso lema.

Toda a equipe ovacionou a decisão do cabo. O sargento Raimundo apenas ouvia os comentários, sorrindo de vez em quando. Sua atenção estava nos controles daquela máquina.

– Foi tudo obra de Deus. Você não tinha como saber que isso iria funcionar – comentou Silvino.

 Kó xe remimima – falou Bernardinho. – Ndí abaibangáî: o pía pupé anhõ asé mba'e osepîakatu. Mba eté nd'oîepîakukári tesá supé.

– Foi o que eu disse – falou Silvino, fingindo ter entendido aquilo.

– O que significa isso, agora? – indagou Luan.

– “Eis o meu segredo” – traduziu Bernardinho. – “É muito simples: não se vê bem a não ser com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”

– Ah, isso eu sei de onde você tirou – falou o sargento Raimundo. – O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupèry.

Bernardinho concordou, movimentando a cabeça.

– Li esse livro umas vinte vezes – comentou Raimundo.

– Puxa – falou Henrique sorrindo. – Isso é gostar de ler, hein! Fala sobre o quê?

– Não sei. Nunca passei da página vinte – revelou o sargento, antes de dar mais uma gargalhada.

De comentário em comentário, fazendo piadas entre um e outro, nem parecia que haviam passado por momentos críticos naquele dia. Resgatar uma radiossonda perdida. Aquela era para ser uma missão muito tranqüila. Mas se fosse tranqüila, com certeza não seria atribuída a eles.

Depois de algum tempo de viagem, finalmente pousaram no heliporto da Fortaleza, o destino final. Ao desembarcar e emitir as últimas orientações, Ariosi partiu para cumprir o procedimento padrão, ou seja, relatar ao capitão Marcelo os detalhes da missão.

Da janela da sala de operações o capitão Marcelo acompanhou o pouso do helicóptero, bem como o desembarque da equipe, certificando-se de que todos estavam bem. Quando o cabo Ariosi desembarcou com algo nas mãos, o capitão pegou o telefone e fez uma rápida ligação.

– Com licença, capitão.

Deixando de lado os mapas em que estava mexendo, o capitão Marcelo fingiu surpresa com a chegada de Ariosi. Em seguida apanhou o objeto que o cabo lhe apresentava e ouviu o relato até o fim, sem esboçar qualquer outra reação.

Com surpresa o cabo Ariosi observou o capitão Marcelo apertar um botão imperceptível na sonda, fazendo com que ela se abrisse exibindo um teclado digital. Com mais surpresa ele ouviu, após o capitão digitar alguns números, uma voz dizer “iniciando procedimento de autodestruição” e em seguida a luz se apagar após um ruído característico de circuitos em curto.

– Pois bem – falou o capitão ao término do relato. – Vou conceder a você e a toda equipe três dias de dispensa total dos trabalhos, a contar de amanhã. Passem todos na sessão de saúde antes de irem embora.

Quando o cabo Ariosi se reuniu novamente com a turma e passou a informação do capitão, toda a equipe vibrou.

– Estamos precisando, mesmo, dessa dispensa – comentou Luan. – Ninguém é de ferro.

Assim que a turma se afastou, o cabo Henrique chamou o cabo Ariosi ao lado. Silvino e Luan haviam comentado o que ocorrera durante o salto de paraquedas.

– Eu não sou maluco, não, cara. Quando os empurrei, na verdade eu estava acionando o dispositivo de abertura automática. Funciona após alguns segundos – declarou Ariosi, rindo muito.

Henrique meneou a cabeça, também sorrindo. Ele sempre soubera que seu amigo não era tão maluco a ponto de expor sua equipe ao risco desnecessário.

– Enquanto somos, a morte não é – falou o cabo Ariosi, enquanto se dirigia a passos firmes para o alojamento.

Henrique apontou o indicador na direção do amigo. Em seguida bateu duas vezes com o punho fechado sobre o lado esquerdo do próprio peito. Em seguida, acelerou o passo e, deixando calçados e roupas ao meio do caminho, atravessou a faixa de areia e ganhou as cristas embranquecidas das ondas que vinham beijar a Praia do Forte.

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– Se esses índios resolverem nos atacar, que Deus tenha piedade da alma deles – falou Silvino.
E então, quando estavam numa distância em que um disparo de flecha poderia ser considerado ‘à queima roupa’, os nativos estancaram onde estavam. Não obstante, prostraram-se com os rostos voltados ao solo.
– Mas que diabos! – estranhou Luan.
Em seguida foi ouvido um ronco de motores e, ao olharem para cima, contemplaram um enorme helicóptero pairando sobre suas cabeças.
– Deus seja louvado! – falou Silvino.
À porta do helicóptero apareceu o cabo Evandro, lançando uma escada de cordas por onde a turma começou a subir.
– Todos embarcados? – indagou o piloto, assim que Ariosi apareceu.
A surpresa, que já tomava conta de todos, ficou ainda maior naquele momento. Aquela voz grave era reconhecível em qualquer lugar.
– Não é possível! O senhor?
– Sim, eu mesmo. Qual o problema, militar? Você esperava o papa? – falou o sargento Raimundo, segurando firmemente o manche de direção.
– Não, senhor. Deus é, mesmo, maravilhoso e às vezes escreve certo em linhas tortas – falou Silvino.
– Podemos partir, então, sargento – anunciou o cabo Evandro.
– Só um instante, sargento – falou Bernardinho.
Todos observaram o soldado Bernardinho se aproximar da porta da aeronave, onde o vento era muito forte, e gritar com todas as forças dos pulmões:
– Te'õ na nhandé sykyîesaba ruã: nhandé rekóreme bé, te'õ rekoe'ými; te'õ rekóreme, nhandé rekoe'ými.
Em seguida ele entrou definitivamente, segurando-se firmemente, pois o sargento Raimundo já esgotava o tempo de planagem e manobrava a aeronave para o destino final. Evandro estava confuso e boquiaberto.
– Alguém pode me dizer o que foi aquilo? – perguntou o sargento Raimundo.
– Vamos contar com detalhes, sargento – falou Ariosi. – Mas eu ainda quero saber o que foi que você acabou de dizer, Bernardinho. Foi a mesma coisa que você disse quando tivemos o primeiro contato com os índios, não foi?
Bernardinho concordou.
– Foi a primeira coisa que me veio à cabeça naquele momento, cabo. Como funcionou, usei novamente.
– Mas o que, exatamente, você disse? – indagou Henrique.
– É de algum filósofo... Acho que grego. Significa alguma coisa como “Nós não temos medo da morte. Porque enquanto somos, a morte não é; E quando a morte é, nós não somos.”
Ficaram em silêncio por alguns segundos, degustando o significado daquelas palavras. Ariosi foi o primeiro a se pronunciar.
– Boa, essa. Enquanto estamos, a morte não... Sabem de uma coisa? A partir de hoje, este será o nosso lema.
Toda a equipe ovacionou a decisão do cabo. O sargento Raimundo apenas ouvia os comentários, sorrindo de vez em quando. Sua atenção estava nos controles daquela máquina.
– Foi tudo obra de Deus. Você não tinha como saber que isso iria funcionar – comentou Silvino.
– Kó xe remimima – falou Bernardinho. – Ndí abaibangáî: o pía pupé anhõ asé mba'e osepîakatu. Mba eté nd'oîepîakukári tesá supé.
– Foi o que eu disse – falou Silvino, fingindo ter entendido aquilo.
– O que significa isso, agora? – indagou Luan.
– “Eis o meu segredo” – traduziu Bernardinho. – “É muito simples: não se vê bem a não ser com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”
– Ah, isso eu sei de onde você tirou – falou o sargento Raimundo. – O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupèry.
Bernardinho concordou, movimentando a cabeça.
– Li esse livro umas vinte vezes – comentou Raimundo.
– Puxa – falou Henrique sorrindo. – Isso é gostar de ler, hein! Fala sobre o quê?
– Não sei. Nunca passei da página vinte – revelou o sargento, antes de dar mais uma gargalhada.
De comentário em comentário, fazendo piadas entre um e outro, nem parecia que haviam passado por momentos críticos naquele dia. Resgatar uma radiossonda perdida. Aquela era para ser uma missão muito tranqüila. Mas se fosse tranqüila, com certeza não seria atribuída a eles.
Depois de algum tempo de viagem, finalmente pousaram no heliporto da Fortaleza, o destino final. Ao desembarcar e emitir as últimas orientações, Ariosi partiu para cumprir o procedimento padrão, ou seja, relatar ao capitão Marcelo os detalhes da missão.
Da janela da sala de operações o capitão Marcelo acompanhou o pouso do helicóptero, bem como o desembarque da equipe, certificando-se de que todos estavam bem. Quando o cabo Ariosi desembarcou com algo nas mãos, o capitão pegou o telefone e fez uma rápida ligação.
– Com licença, capitão.
Deixando de lado os mapas em que estava mexendo, o capitão Marcelo fingiu surpresa com a chegada de Ariosi. Em seguida apanhou o objeto que o cabo lhe apresentava e ouviu o relato até o fim, sem esboçar qualquer outra reação.
Com surpresa o cabo Ariosi observou o capitão Marcelo apertar um botão imperceptível na sonda, fazendo com que ela se abrisse exibindo um teclado digital. Com mais surpresa ele ouviu, após o capitão digitar alguns números, uma voz dizer “iniciando procedimento de autodestruição” e em seguida a luz se apagar após um ruído característico de circuitos em curto.
– Pois bem – falou o capitão ao término do relato. – Vou conceder a você e a toda equipe três dias de dispensa total dos trabalhos, a contar de amanhã. Passem todos na sessão de saúde antes de irem embora.
Quando o cabo Ariosi se reuniu novamente com a turma e passou a informação do capitão, toda a equipe vibrou.
– Estamos precisando, mesmo, dessa dispensa – comentou Luan. – Ninguém é de ferro.
Assim que a turma se afastou, o cabo Henrique chamou o cabo Ariosi ao lado. Silvino e Luan haviam comentado o que ocorrera durante o salto de paraquedas.
– Eu não sou maluco, não, cara. Quando os empurrei, na verdade eu estava acionando o dispositivo de abertura automática. Funciona após alguns segundos – declarou Ariosi, rindo muito.
Henrique meneou a cabeça, também sorrindo. Ele sempre soubera que seu amigo não era tão maluco a ponto de expor sua equipe ao risco desnecessário.
– Enquanto somos, a morte não é – falou o cabo Ariosi, enquanto se dirigia a passos firmes para o alojamento.
Henrique apontou o indicador na direção do amigo. Em seguida bateu duas vezes com o punho fechado sobre o lado esquerdo do próprio peito. Em seguida, acelerou o passo e, deixando calçados e roupas ao meio do caminho, atravessou a faixa de areia e ganhou as cristas embranquecidas das ondas que vinham beijar a Praia do Forte.

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