"Nossa história, nossos autores"

Coletânea de poesias, contos e crônicas de diversos autores, organizada pela Editora Scortecci (edição comemorativa de 30 anos) e publicada em agosto de 2012, durante a 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Na obra em questão, participo com o conto intitulado O ESTRANHO MISTERIOSO.


O estranho misterioso
Eber Josué

Chegou à porta do estabelecimento e, antes de entrar, fitou o interior por um bom tempo. Em silêncio movimentava a cabe­ça enquanto os olhos percorriam cada parte daquele bar que podia ser visto na penumbra. Adentrou com tranqüilidade, escolheu uma mesa sem muito pensar e aguardou a eternidade de quase dez mi­nutos, sempre observando com atenção. Deteve-se por alguns ins­tantes num velho piano empoeirado a um canto, momento em que vários flashes do passado vieram à sua mente. Chamou o dono do estabelecimento e fez o pedido.
Saboreava devagar o petisco que fora servido, intercalando aos pequenos goles de vinho. Uma lâmpada tremelicava a um canto sem parar. Qualquer um que a observasse logo ia dizendo “vai se queimar”, mas ele não se importava nem um pouco com aquilo – se queimasse não seria surpresa, tampouco se continuasse a tremelicar eternamente ou repentinamente voltasse a brilhar com normalidade. A última hipótese foi a que se concretizou e ele voltou a contemplar o velho piano.
As pessoas que estavam ali dentro eram velhos senhores bar­budos, senhoras de saias rodadas e cabelos desgrenhados, crianças brincando pelo chão... Percebia-se que a maioria estava ali apenas para passar o tempo e que, de quebra, bebia um refrigerante, uma cerveja, mastigava um amendoim... Pelo cheiro parecia até mesmo que alguém ali dava uma baforada de tempos em tempos num cachimbo.
Não tinha a intenção de partir no momento em que chamou novamente o dono do estabelecimento com um aceno. Fez sinal para que o senhor se abaixasse para que pudesse falar em seu ouvido:
– Vou pagar com música.
O dono do estabelecimento parecia não entender o que signifi­cavam as palavras do estranho, que se levantou tão logo disse aquilo. Estupefato observou o estranho lançar um olhar para o velho piano, há décadas esquecido ao canto, e dirigir-se para aquela direção.
A quantidade de pó era impressionante. Ele percebeu pela nuvem de poeira que se formou ao sentar na poltrona almofadada e levantar a tampa que recobria o teclado. Por sorte havia uma fai­xa de tecido felpudo, possivelmente veludo, a proteger os teclados de marfim. Enquanto tomava coragem para acionar uma daquelas teclas, lançou ainda um olhar na direção da mesa em volta da qual estivera assentado. O dono do estabelecimento ainda permanecia lá, qual estátua, com as mãos entrelaçadas.
Assim que sentiu pronto acionou uma das teclas. Fantástico! Apesar do aparente maltrato a nota Lá soou com nítida perfeição. Esperou alguns instantes, como quem espera a conseqüência de um ato. Esboçou em seguida mais uma tecla daquele acorde e percebeu que o som, em harmonia, encaixava-se maravilhosamente bem. Es­tava afinado, portanto.
Se naquele momento ele não estivesse tão maravilhado, prova­velmente perceberia que acabava de se tornar o centro das atenções. Em todas as mesas todos interromperam o que faziam, deixaram de conversar, deixaram de comer e beber, para voltar as atenções para aquele piano que muitos nem sabiam que existia. Isso foi gradativa­mente, provavelmente após o primeiro acorde perfeito.
O estranho testou todos os acordes que conhecia. Testou todas as teclas brancas e todas as teclas negras. Testou os pedais e, finalmente, após um glissando vivaz, respirou fundo e começou a tocar uma canção. Começou suavemente e logo pareceu fundir-se ao piano, tal a estranha relação de energia que se percebia. Com os olhos cerrados, suas mãos dançavam sobre o teclado numa estranha e macabra sintonia.
No bar as pessoas no início se entreolhavam, com um olhar de interrogação, mas já não o faziam agora. As senhoras apoiaram os co­tovelos às mesas e dobraram as mãos debaixo do queixo, as crianças deitaram ao solo com a barriga a roçar o chão, os senhores simples­mente observavam tudo aquilo, exceto um ou dois deles que, mesmo com os olhares fixos no pianista, ainda amassavam com cuidado o fumo que depositariam depois no fornilho do cachimbo. E o dono do bar, é claro, que assistia a tudo recostado a um velho balcão.
O pianista prosseguia virtuosamente, alheio a tudo o que ocorria à sua volta. A música, como névoa, surgia em sua mente num instante e durava tempo suficiente para percorrer-lhe os dedos e fluir pela vibração causada do impacto das teclas aos martelos e, consequentemente, às cordas do piano.
O tempo passou rapidamente enquanto, na penumbra de um velho bar, velhos e crianças eram embalados por uma estranha mú­sica tocada por mais estranha figura aparecida do nada, de origem e paradeiro ignorados. Em determinado momento, após um granfinale, o piano silenciou de vez.
Se as pessoas ali não estivessem tão maravilhosamente em­bebedadas pelo som, poderiam notar que o pianista terminara o seu recital. Cuidadosamente foi fechando o piano, recolocando a proteção das teclas, recostando o banco sob o instrumento, ao mes­mo tempo em que se levantava e lançava um último olhar para a peça. Em seguida, a passos firmes foi caminhando para a entrada do bar quando, e só então, notou a reação que causara: pessoas estáti­cas, com olhos perdidos e brilhantes, alguns lacrimejantes, sorrisos na face... Aquelas pessoas nem saberiam o significado da palavra ‘aplauso’ e ele seria a pessoa a quem aquilo menos incomodaria.
Continuou o caminho e fez menção de sair, mas se deteve ao aceno do dono do bar, que parecia lhe chamar ao balcão. Mudou o caminho e se dirigiu ao balcão, onde o senhor, nervosamente, remexia na caixa registradora. Os olhares de ambos se cruzaram, ao que o dono do estabelecimento balbuciou:
– Por favor, passe outra hora para pegar o troco.
O estranho ainda fitou aquele senhor por um tempo. Virou as costas em seguida e abandonou de vez o lugar. Atrás de si deixou pessoas confusas, boquiabertas, felizes... No recinto uma lâmpada voltou a tremelicar.
Um dia voltaria ali. E contaria àquele senhor, e a quem mais in­teressasse, toda a verdade e mistério que pairavam sobre o velho piano.

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