"Raízes - laços do Brasil com Angola"



Coletânea organizada pela Ed Literarte, reúne textos de diversos autores Brasileiros e Angolanos, com previsão de lançamentos sucessivos, no decorrer do ano de 2013, no Brasil, em Angola e na Bélgica.
Na obra em questão, participo com o conto intitulado O CANDIDATO.


O candidato
Eber Josué
– Que entre o próximo candidato! – chamou o apresentador, impecável em seu terno cinza.
Seguido pelo fundo musical e caminhando sobre a rota traçada pelo holofote, o candidato adentrou o auditório e logo se posicionou sobre sua marca.
Parecia ser mais um candidato que empenharia todo o esforço diante da multidão, acreditando estar fazendo a melhor das apresentações, para ao final ser cravejado pela crítica impiedosa dos jurados, o que era comum naquele programa de calouros.
Era um jovem pequeno e franzino, com a pele tão escura quanto a mais nutrida argila encontrada na profundeza das nascentes. Seus olhos grandes só não eram maiores que a curiosidade da platéia que se perguntava que tipo de novidade aquele garoto poderia demonstrar.
Pequenos e isolados murmúrios eram perceptíveis na platéia. Um dos jurados batia com descaso a caneta sobre a mesa, enquanto roía uma das unhas de sua mão.
– De qual comunidade você veio, meu jovem?
O garoto encarou o apresentador, confuso e incomodado. Pelo que havia entendido o apresentador estava lhe indagando de qual comunidade... Favela? Não, com certeza era apenas um mal entendido.
– Moro em Alphaville – falou, citando uma nobilíssima região da grande São Paulo. – O senhor conhece?
– Alphaville? – O apresentador não conseguiu segurar o espanto. – Conheço! Um abraço aos meus amigos de Alphaville, Barueri... – e dirigindo-se para sua equipe de trabalho: – Produção! Não tem um calouro morador de uma favela daqui de São Paulo?
– Será o próximo candidato – uma voz veio do alto-falante.
Depois de manter cingido o cenho por alguns instantes, o apresentador dirigiu-se novamente ao rapaz.
– Qual música você vai cantar hoje? – perguntou, esforçando-se para parecer interessado pela resposta que já conhecia de antemão.
Outro jurado olhava fixamente na direção do candidato, mas sem observá-lo, pois o foco da atenção estava além, na bela senhora que passava do outro lado do palco.
A música foi revelada, mas antes que o apresentado comandasse o tradicional “música, maestro”, dirigiu-se para o jovem.
– Tem certeza que você vai cantar essa música, garoto? Você sabe falar em inglês?
O jovem movimentou os ombros e assentiu.
Olhando de relance para os jurados, enquanto simulava um pequeno sorriso debochado, o apresentador afastou-se para que o júri e a platéia pudessem ter uma visão melhor da apresentação.
Foi dado o primeiro acorde e o jovem, aparentando naturalidade, começou a preparar sua posição e a cadenciar lentamente sua respiração. Quando a introdução instrumental foi concluída e a orquestra se preparou para dar ênfase apenas à harmonia, ele iniciou o canto.
Desde o início da canção a atenção da assistência se prendeu ao intérprete e não conseguiu mais se desviar. A voz do rapaz deixava a todos extasiados, preenchia todo o ambiente e se encaixava perfeitamente à harmonia, sobrepondo-a nos momentos em que era necessário.
O que ninguém conseguia ver, no entanto, era tudo o que se passava na mente do jovem, como um filme em três dimensões. Enquanto a música fluía e ele se sentia, como nunca, completamente livre, as cenas se sobrepunham diante de si.
Em seu devaneio ele via um pequeno garoto negro, como era a cor de sua pele, e inúmeras portas nas quais ele batia e que se fechavam diante de si, sem que pudesse dar uma mostra do seu talento. Sequer davam-se ao trabalho de ouvi-lo. Não tinha o perfil, era o que sempre ouvia antes que a porta fosse fechada para em seguida se abrir, prazerosamente, fazendo entrar o próximo da fila, que se encaixava no ‘perfil’ antes mesmo que abrisse a boca.
“Não se preocupe, meu filho” – alguém da família dizia – “isso é normal acontecer com a nossa gente. Um dia isso vai mudar”.
Normal? Nossa gente? Alguém poderia fazer o favor de anunciar em todos os tipos de mídia que os tempos haviam mudado há muito tempo? Que o Brasil tornara-se um país livre, formado por cidadãos livres e iguais perante a lei? “Livre terra de livres irmãos”?
A melodia tornava-se mais forte nos momentos em que as lembranças se fortaleciam. Mas tudo aquilo, no entanto, não passava de devaneios. Nem fora ele, na verdade, quem vivera aquelas cenas que foram gravadas em sua mente pelo seu avô.
Entre razões e emoções, chegou o momento de finalizar a canção. E ele somente abriu os olhos e passou a respirar normalmente depois da última frase, momento em que a assistência já estava toda de pé, aplaudindo com veemência.
– Com quem você aprendeu a cantar assim, garoto? – indagou um membro do júri, logo que os aplausos cessaram.
– Meu avô – falou o garoto.
– Como é o nome do seu avô, que eu vou mandar um abraço... Ele é vivo?
– Abraão Lima. É, sim.
– Alô, senhor Abraão... Abraão Lima? Igual o chefão, dono da emissora? – indagou o apresentador, gargalhando.
O candidato respirou fundo e, enquanto movia a cabeça em sinal afirmativo, falou:
– O meu avô é o dono desta emissora.
Um silêncio reinou por alguns segundo em todo o auditório. Em seguida, saraivas de palmas vindas da platéia. O apresentador não sabia o que vinha a seguir e o monitor que tinha à frente não ajudava muito.
– Meu filho – falou, dirigindo-se para calouro – aguarde ao lado que eu vou chamar o próximo candidato. Produção, traga uma água que o menino está nervoso.
O apresentador voltou-se para o centro do auditório, ajeitando nervosamente seu terno.
– Vamos rapidamente para o comercial e voltamos já, já – anunciou.

Com sorte, ao retornar ainda teria o seu emprego.

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